Ciclo "A Questão da Fé"
Interrogações, dúvidas, negação na obra de grandes cineastas
Junho
2026
Qui
4
—
Qua
10
Sinopse
Paul Schrader colocou esta epígrafe ao seu livro O Estilo Transcendental no Cinema: "A religião e a arte / são linhas paralelas / que se intersectam somente no infinito, / e se encontram em Deus", do teólogo holandês Gerardus van der Leew. Este ciclo surgiu na sequência da estreia do filme Os Domingos.
A Fé, que pode ou não ser questão de religião, sempre trouxe consigo interrogações e dúvidas, aceitação ou negação (perguntava Oliveira nas suas reflexões sobre o seu Palavra e Utopia: "Não há ateus convertidos? E crentes que perderam a fé?", ele que frequentemente citava Régio e o seu "crer não crendo"; no Pickpocket de Bresson, Michel diz: "Acreditei em Deus durante três minutos" e o realizador, que era católico, comentava que "poucas pessoas podem dizer que acreditaram em Deus durante tanto tempo").
Escolhemos uma dúzia de filmes, todos eles de grandes cineastas, todos eles obras-primas, de várias épocas e cinematografias (mas muitos outros se poderiam acrescentar), e que, por caminhos diversos que acabarão por se intersectar, abordam esta questões, colocadas por realizadores que sempre assumiram a sua religiosidade, como Bresson ou Rossellini, ou, por outro lado, Buñuel, que, tendo tido em criança uma educação religiosa, se dizia "ateu, graças a Deus" (e em cuja obra a religião teve sempre forte presença, com filmes que foram proibidos e o realizador a ser condenado à prisão e excomungado). Obras de despojamento e ascetismo, como as daqueles dois cineastas, ou Dreyer, Oliveira e Olmi, outras, barrocas, como o filme de Verhoeven, e tanto umas como outras acabariam por causar escândalo.
Para finalizar (ou começar de novo): não será o cinema um acto de “revelação”, algo da ordem do milagre, ao qual assistimos juntos, numa sala, onde, como no milagre de Ordet, o tempo se suspende, e nós, espectadores, com uma certa dose de inocência, percorremos os estranhos caminhos para encontrarmos a sua “verdade”? — Medeia Filmes
A Fé, que pode ou não ser questão de religião, sempre trouxe consigo interrogações e dúvidas, aceitação ou negação (perguntava Oliveira nas suas reflexões sobre o seu Palavra e Utopia: "Não há ateus convertidos? E crentes que perderam a fé?", ele que frequentemente citava Régio e o seu "crer não crendo"; no Pickpocket de Bresson, Michel diz: "Acreditei em Deus durante três minutos" e o realizador, que era católico, comentava que "poucas pessoas podem dizer que acreditaram em Deus durante tanto tempo").
Escolhemos uma dúzia de filmes, todos eles de grandes cineastas, todos eles obras-primas, de várias épocas e cinematografias (mas muitos outros se poderiam acrescentar), e que, por caminhos diversos que acabarão por se intersectar, abordam esta questões, colocadas por realizadores que sempre assumiram a sua religiosidade, como Bresson ou Rossellini, ou, por outro lado, Buñuel, que, tendo tido em criança uma educação religiosa, se dizia "ateu, graças a Deus" (e em cuja obra a religião teve sempre forte presença, com filmes que foram proibidos e o realizador a ser condenado à prisão e excomungado). Obras de despojamento e ascetismo, como as daqueles dois cineastas, ou Dreyer, Oliveira e Olmi, outras, barrocas, como o filme de Verhoeven, e tanto umas como outras acabariam por causar escândalo.
Para finalizar (ou começar de novo): não será o cinema um acto de “revelação”, algo da ordem do milagre, ao qual assistimos juntos, numa sala, onde, como no milagre de Ordet, o tempo se suspende, e nós, espectadores, com uma certa dose de inocência, percorremos os estranhos caminhos para encontrarmos a sua “verdade”? — Medeia Filmes
cinema
Info sobre horário e bilhetes
Qui
4.06
18:30
21:45
Sex
5.06
21:30
Sáb
6.06
15:30
18:00
21:30
Dom
7.06
15:30
18:00
21:30
Seg
8.06
21:30
Ter
9.06
21:30
Qua
10.06
18:30
21:30
Campo AlegreCine-Estúdio
Informação adicional
- Preço
5.50€ (por sessão)
Acessibilidades do espetáculo
Acessível a pessoas em cadeira de rodas
Texto biografia autores
PROGRAMA
4/06 qui
18:30 — A Lenda do Santo Bebedor
21:45 — O Santo dos Pobrezinhos
5/06 sex
21:30 — Nazarín
6/06 sáb
15:30 — Os Domingos
18:00 — A Palavra
7/06 dom
15:30 — Palavra e Utopia
18:00 — Europa 51
8/06 seg
21:30 — Benedetta
9/06 ter
21:30 — O Carteirista
10/06 qua
18:30 — Nostalgia
21:30 — Luz de Inverno
Ficha técnica
- A Lenda do Santo Bebedor
de Ermanno Olmi
com Rutger Hauer, Anthony Quayle, Sandrine Dumas, Dominique Pinon
Itália, 1988, 2h08, 12+
Um sem-abrigo, Andreas (Rutger Hauer, num dos seus desempenhos mais brilhantes), assombrado pelo passado e pelo vício do álcool, recebe 200 francos de um estranho, sob uma única condição: que, quando conseguir e como forma de pagar a sua dívida, doe o dinheiro a uma igreja local. Filme labiríntico e onírico, a partir da novela homónima de Joseph Roth, esta jornada redentora está imbuída de um humanismo especial que alcança dimensões transcendentais. Venceu o Leão de Ouro no festival de Veneza.
O Santo dos Pobrezinhos
de Roberto Rossellini
com Aldo Fabrizi, Arabella Lemaître, Frei Nazario Gerardi, Padre Roberto Sorrentino
Itália, 1950, 1h25, 12+
“Estamos perante uma experiência rara, um filme cativante, sábio, simples e com várias camadas, uma daquelas obras abençoadas que não só renova a nossa percepção do cinema, como abala a nossa visão do mundo.” — Peter Von Bagh
“Para a maior parte da crítica contemporânea destes filmes, os milagres de Il Miracolo, Stromboli (Terra di Dio, insisto), Europa 51 ou Viaggio in Italia só puderam aparecer como o cúmulo da inverosimilhança ou como uma loucura. Francesco, se foi mais bem aceite, só o foi porque tinha uma caução histórica, com base nas ‘Fioretti’ de S. Francisco de Assis. Mas a uma leitura literal só pode parecer, como pareceu a Fabrizi, uma completa loucura e uma história de loucos. Precisamente, o que se chama a loucura da fé. E, com inteira razão, André Bazin, sob o pseudónimo de Roger Gabert, aproximava o filme numa crítica publicada no nº 1 dos “Cahiers du Cinéma” dos versos de Claudel (outro católico “louco”) na Sexta Estação do seu Chemin de la Croix: “Cela fait rire et ça choque / Car celui à qui Jésus-Christ n’est pas seulement une image mais vrai / Aux autres hommes devient désagréable et suspect...”. O que mais me continua a fascinar neste filme belíssimo, é esse lado de choque, esse lado louco numa obra que não faz qualquer concessão à fácil sentimentalidade a que o franciscanismo se pode prestar. No sentido baziniano, é um filme profundamente realista, abordando alguns capítulos duma das histórias mais irrealistas que jamais se escreveram: as “Fioretti”. O milagre surge da naturalidade.” — João Bénard da Costa
Nazarín
de Luis Buñuel
com Francisco Rabal, Marga López, Rita Macedo
México, 1958, 1h34, 12+
“Nazarín interessava-me como tipo humano, como conflito espiritual, religioso, moral, etc.[…]. Permitia-me também introduzir muitos elementos pessoais, mais actuais, sobre o cristianismo, a caridade... Nazarín é sempre um homem puro, […] um homem fora do comum e é por isso que gosto tanto dele. […] É um Quixote do sacerdócio, que em vez de seguir o exemplo das novelas de cavalaria, segue o dos Evangelhos. Em vez de ter como escudeiro Sancho Pança, é acompanhado por duas mulheres, que são um bocado as suas ‘escudeiras’. Ao mesmo tempo, Beatriz pode ser Maria Madalena e Andara uma versão feminina de S. Pedro (por exemplo: Pedro puxa da espada quando prendem Cristo; Andara fere um guarda quando detêm Nazarín).” — Luis Buñuel
Os Domingos
de Alauda Ruiz de Azúa
com Blanca Soroa, Patricia López Arnaiz, Nagore Aramburu
Espanha, França, 2025, 1h55, 14+
É o filme espanhol do ano, e depois de ter vencido o Festival de San Sebastián, onde se estreou, foi também o grande vencedor dos Prémios Goya, com cinco estatuetas, nas categorias mais importantes. Esta história iniciática de uma adolescente que anuncia à família querer abraçar a vida monástica, já levou às salas de Espanha mais de 700 mil espectadores, cativados pela simplicidade da escrita de Alauda Ruíz de Azúa ao tratar a complexidade dos tormentos e da exaltação da adolescência, coroada pela música de Nick Cave. Um retrato de família profundo e subtil, longe do maniqueísmo. Os Domingos foi também o Melhor Filme de 2025 para a crítica espanhola.
“Interessava-me perceber como outros cineastas tinham trabalhado o espiritual e recorri a autores como Dreyer. Voltei a ver A Palavra (1955) porque naquela cena em que a mulher é ressuscitada há coisas que me interessam muito. Também Bresson. Interessa-me a forma como constroem o mistério com grande austeridade, como trabalham o som ou o silêncio. Não queria recorrer a estátuas religiosas, mas antes a coisas subtis.” — Alauda Ruiz de Azúa
A Palavra
de Carl Theodor Dreyer
com Henrik Malberg, Emil Hass Christensen, Preben Lerdorff Rye
Suécia, 1955, 2h06, 12+
"À morte chamara Johannes o 'homem da ampulheta'. Tudo está na areia que escorre, na passagem das horas. 'E então o tempo, sim foi coisa que passou'. Só a Palavra e a Imagem o podem suspender assim. E, por isso, disse S. Paulo que, maior do que a fé, era o amor. Ordet é o filme desse amor." — João Bénard da Costa
- Viridiana
de Luis Buñuel
com Silvia Pinal, Francisco Rabal, Fernando Rey, Margarita Losano
México, 1961, 1h30, 12+
"Viridiana provocou em Espanha um escândalo muito considerável, comparável ao de L'Âge d'or. [...] foi imediatamente proibido e o Director Geral da Cinematografia Espanhola era mandado para a reforma antecipada por ter subido ao palco do festival de Cannes para receber [a Palma de Ouro]…" — Luis Buñuel
Palavra e Utopia
de Manoel de Oliveira
com Lima Duarte, Luis Miguel Cintra, Ricardo Trêpa, Leonor Silveira
Portugal, 2000, 2h10, 12+
"Não há ateus convertidos? E crentes que perderam a fé? Vá daí julgar-se que por se tratar dum filme sobre um cristão e padre jesuíta, como é o caso de Palavra e Utopia, o realizador, mesmo sendo objectivo tanto quanto em arte possa ser-se, enquanto religioso dessa religião ou doutra, agnóstico ou ateu, passará aos olhos de quem critica, de modo superficial, como cúmplice do facto que é mostrado, comprometendo assim todos os seus julgamentos sobre valores e factos. E não será isto, por sua vez, levar a crítica ao desvio grave de olhar para o realizador como se fora ele um Vieira, tomando um pelo outro?" — Manoel de Oliveira
Europa 51
de Roberto Rossellini
com Ingrid Bergman, Alexander Knox, Ettore Giannini
Itália, 1952, 1h53, 12+
“Numa célebre entrevista aos “Cahiers” o realizador falou dos homens sem esperança e dos homens com esperança. E acrescentou: ‘Talvez pareça duma extrema ingenuidade, mas é o único problema’. E nessa mesma entrevista aproximou a ‘loucura’ de Ingrid Bergman em Europa 51 da ‘loucura’ de S. Francisco de Assis. ‘Sabem como é que tive a ideia da Europa 51? Foi quando estava a filmar Francesco e contei as ‘Fioretti’ a Fabrizi. Depois de me ouvir, voltou-se para a secretária dele e disse ‘Era louco’ e a outra respondeu-lhe: ‘Absolutamente louco’ [...] S. Francisco e Simone Weil estão na base de Europa 51’. — João Bénard da Costa
Ao Sol de Satanás
de Maurice Pialat
com Gérard Depardieu, Sandrine Bonnaire, Alain Artur, Brigitte Legendre
França, 1987, 1h38, 12+
“Esta é a obra-prima de uma obra. Como a Nona de Beethoven, é efectivamente a plenitude de todas as sinfonias. Quando vejo A Palavra de Dreyer, quando vejo Ao Sol de Satanás de Pialat…: tudo está lá, e perfeitamente ordenado. […] É a apoteose da sua arte.” — Bruno Dumont
Benedetta
de Paul Verhoeven
com Virginie Efira, Daphné Patakia, Charlotte Rampling
França, Holanda, Bélgica, 2021, 2h11, 16+
A partir da obra Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy, de Judith C. Brown, Verhoeven consegue um filme sublime, de corpo e alma, vizinho do êxtase místico de Santa Teresa de Ávila.
O Carteirista
de Robert Bresson
com Martin LaSalle, Marika Green, Jean Pélégri
França, 1959, 1h17, 12+
Vagamente baseado em “Crime e Castigo” de Fiodor Dostoievski, O Carteirista, uma das grandes obras de Robert Bresson, aborda temas recorrentes no cinema do realizador francês: o pecado, a culpa e a redenção.
“Ao som da música de Lully, Bresson ilumina o caminho de um homem que sabe, paulinianamente, que a lei mata e o espírito vivifica. Um homem chamado Michel que a Graça acompanha, na sua trajetória entre a liberdade e a prisão. Livre, é prisioneiro do seu corpo e do seu espírito. Preso, encontra a alma e o misteriosíssimo sentido da frase que diz depois da morte da mãe: ‘Acreditei em Deus durante três minutos.’ Bresson comentou que poucas pessoas poderão dizer que acreditaram em Deus durante tanto tempo. Também poucas pessoas terão compreendido, como Michel, a razão da força irracional de um destino humano. Por isso, à única mulher que o amou e que, para o amar, também teve de abandonar toda a ordem e toda a racionalidade, Michel dirá, no final, entre as grades, com o inconfundível acento neutro dos personagens bressonianos, a seguinte frase: ‘O Jeanne, pour aller jusqu’à toi, quel drôle de chemin il m’a fallu prendre.’”. — João Bénard da Costa
Nostalgia
de Andrei Tarkovsky
com Oleg Yankovskiy, Erland Josephson, Domiziana Giordano, Patrizia Terreno
URSS, 1983, 2h05, 16+
"Talvez estejamos aqui para enriquecer-nos espiritualmente. Se nossa vida tende a este enriquecimento espiritual, então, a arte é um meio para lá chegar." — Andrei Tarkovsky
Luz de Inverno
de Ingmar Bergman
com Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand, Max von Sydow, Gunnel Lindblom
Suécia, 1963, 1h21, 12+
"Em Luz de Inverno, Bergman levou a depuração ao mais extremo." — João Bénard da Costa



